" Fechas os olhos no escuro mas estás acordado para sempre"

domingo, 29 de março de 2015

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Acordas contrariada, porque odeias domingos de manhã. Odeias o sol que entra pela janela e te beija a barriga para te despertar. Odeias as fitas que volta e meia te passam diante dos olhos, e que trazem escritos em versos os erros da noite passada. E são tantos, mas o que dói nos erros não é cometê-los. O que dói nos erros é sempre a manhã seguinte. E por isso acordas contrariada, porque odeias domingos de manhã. Encostas a cabeça à almofada, encolhes-te no último bocadinho de sono, tentas fechar os olhos e tentas fugir do ar pesado do teu quarto. Mas há roupas espalhadas no chão, livros abertos na secretária, uma vela apagada, álbuns com fotografias de sentimentos que já acabaram, papéis no caixote do lixo. Há uma vida aqui, e é a tua.
Sentas-te na cama com as pernas nuas debaixo dos lençóis, e fixas o olhar no teto e ficas a pensar no que devias estar a pensar. Choras baixinho, e nem sequer estás triste. Estás só muito perdida. E estás muito sozinha. E se calhar isso dói-te ainda mais do que os erros. Não aguentas o teu telemóvel que não toca, a tua casa silenciosa, o vazio do dia inteiro que vais ter em mãos. Pesa-te tudo tanto. E choras mais um pouco. E mesmo assim o telemóvel não toca.
Podia ser mais fácil fugir. Podia ser mais fácil abandonar a vida e correr por aí sem ela. É sem dúvida mais fácil adormecer do que acordar. É mais fácil beber de madrugada do que tomar o pequeno-almoço. É mais fácil fingir amor do que lidar com a sua ausência.
Ninguém quer estar sozinho. Ninguém quer estar onde está. Odeias domingos de manhã porque te dói a cabeça, tens o estômago às voltas e o coração doente. Mas o problema é que há aqui uma vida, e é só a tua.

segunda-feira, 23 de março de 2015

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♡

Desculpa, vou-me embora. Vou embora daqui hoje. Odeio estas ruas feias, as pedras desfeitas das calçadas, e toda a gente que as pisa e que não repara que elas choram por nós. Não sei respirar como vocês, loucos e estúpidos, aborrecidos e mortos, olhos pousados na estrada e ninguém faz nada nunca. Como é que conseguem dormir e acordar, fazer panquecas e sorrir? Não vos percebo, nem tu percebes, como eu odeio os domingos de manhã. As noites são tão curtas, a escuridão que me abraça é tão pouca, tudo escasseia, tudo me cai das mãos, o ar não tem peso, as pedras não prendem os sonhos ao chão, as árvores não chegam ao céu, vivem todos encolhidos nas metades de todas as coisas. Ninguém abre os braços e sonha, ninguém é maior do que os seus medos. Isso mete-me nojo. Tudo me mete nojo. E cheira mal, a chuva miudinha e a limão, é um ar amargo este que respiramos. Os meus pulmões rejeitam-no, odeiam-no de morte. Faz-me doente. Esta cidade de gelo faz-me adoecer. Linhas de dormência gelada que me nascem na ponta dos pés e me atravessam a vida. Vou-me embora daqui hoje. E quero ir para um sítio que não faça ideia de quem eu sou. Vou fazer desse sítio um sítio bonito. Um sítio com sol verdadeiro. Noites longas e fundas, parques com bancos que não se partam à primeira lágrima, madrugadas, praias, poetas descalços e histórias de amor. Vai ser perto de onde descolam os aviões, e assim, aos domingos de manhã, em vez de sorrir, vou ficar a vê-los rasgar o céu, ouvir as pessoas chorar com saudade e derramar amor bruto para a estrada.

terça-feira, 17 de março de 2015

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😴

Eu podia dizer-te mil coisas, mas agora quero dormir. Tenho mesmo mil nós de palavras entalados no fundo da garganta, mas agora quero dormir. Quero fechar os olhos, porque agora quero dormir, mas odeio-te tanto que nem sei. Apago a luz mas a raiva corre-me bruta nas veias, o teu sorriso pica-me o topo da cabeça como se cada dente teu fosse uma agulha. Evoco sonhos de outras noites mas estou apaixonada por ti. Mordo os lençóis, reviro-me num desespero fundo, e o que raio é feito de ti? Quem raio achas tu que és? Eu sou eu, sou eu ainda e tu gostas de mim. Sei que ainda gostas de mim, então onde estás tu, e porque é que para o mundo é normal passar por ti e não te sorrir? Conhecemo-nos, e agora fazemos o quê? Desconhecemo-nos? Eu juro que quero dormir, mas abro os olhos no escuro e que merda é esta? Dói tanto assim e não faz sentido. Não fazes sentido. Não faço sentido. Quero dormir mas o meu quarto é escuro e enjoativo e mudo e calado e não faz sentido o mundo estar a girar há milhões de anos e eu estar aqui deitada a pensar em ti, parvalhão. Odeio-te tanto que nem sei. Quero dormir. A lua já está posta no céu outra vez, a casa já está em silêncio outra vez, já se ouve o tempo passar no barulho surdo dos ponteiros do relógio da cozinha, outra vez. Vejo as horas morrer nas sombras das paredes; sinto os pulmões encolherem-se-me dentro do peito, estúpidos e desatentos; ouço as vozes da noite a meio tom; respiro o peso da minha existência aqui, neste sítio, neste preciso momento. 
E eu juro que só queria dormir.

quinta-feira, 12 de março de 2015

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Gloriously | via Tumblr

Não podes sair. Não podes bater com a porta e gritar que estás farto. Não consegues fugir, és mais lento que a vida e ela apanha-te na primeira esquina. Fumas cem cigarros por dia, mil cigarros por noite, mas os teus pulmões não se desfazem, não te libertas do problema, e as madrugadas engolem-te, dão-te mil voltas à cabeça, sacodem-te o corpo e enlouqueces. A vida não se dá bem com os loucos. E tu não podes fugir de ti. Não podes abandonar os fardos que tens às costas e ir viver para uma praia deserta e calada, onde não tens peso nas palavras, onde não há doença na loucura. Não podes estar sozinho. Tens que rir, tens que falar, tens que prometer, que chorar, e tens que guardar segredos que não movem o mundo. É a tua vida. Mas não foi feita para ti.
Então sais de casa, as ruas passam-te ao lado, o ar não te toca na pele, os teus pés não chegam ao chão, e quando tudo o que é teu não encaixa em ti, podias morrer sem pena de não teres ficado mais tempo. Nem sequer te importa para onde vais, ter um caminho não te fez crescer, por isso andas perdido, tens que te encontrar mas não queres, tens que parar de vaguear mas não sabes como, tens que lavar as mãos de todos esses arrependimentos mas não o fazes. Todas as pessoas são doentes, e todas as pessoas ardem em feridas de amor. E depois algumas são loucas, choram lágrimas de sangue e rasgam as pontas do coração quando não conseguem dormir à noite.
Não podes sair daqui. Não podes fingir que sabes onde és feliz. Não devias ser louco mas agora é tarde demais. É sempre tarde demais para todas as coisas que não devias ser.
Fechas os olhos no escuro mas estás acordado para sempre.