Vi-te passar numa janela fria em Londres. Vi-te passar, pintado de cinzento e de abandono, igual às ruas, despercebido na cidade. Vi-te passar lá em baixo, mas não disse nada a ninguém.
E cá em cima, três raparigas que eu não conhecia arrumavam as malas e falavam, sem poesia nas palavras, sem estrelas na língua. Eu não lhes disse nada sobre ti.
E tu passavas. Calmo, como eu nunca te tinha visto, ainda com medo da solidão, mas a vê-la, devagarinho, acomodar-se debaixo da tua pele. E veio para ficar, meu amor.
Fingi que tentava fechar a janela durante duas eternidades e meia, e quando calhava, uma delas dizia-me, do fundo do quarto, que não me preocupasse, que a deixasse estar assim, que depois chamariam alguém para a tentarem arranjar.
Não lhe respondi. Não lhe disse que estava apaixonada. Em vez disso, agarrei-me com força à portada, fiquei com lascas de tinta branca antiga nas mãos e enfiei meia dúzia de farpas nos pulsos. Eu já sabia que elas não compreendiam ver-me de olhos presos na estrada, mas elas eram felizes com vernizes e filmes e batons novos. E eu alimentava o meu coração de estrelas e de água da chuva, e precisava do sal das minhas lágrimas nas noites em que não sabia adormecer.
Mas era verdade que a janela não fechava. E, por aquela fresta teimosa, entravam os ventos gelados de um fevereiro que nunca se tinha visto tão triste. Passava da meia-noite, elas queriam dormir, saltitavam de canto em canto do quarto de pijama, lavavam os dentes todas juntas e riam, e soltavam gritinhos de cada vez que levavam o chá à boca e se queimavam, até que começaram a fazê-lo de propósito para se fazerem rir umas às outras.
Passava da meia-noite em Londres quando eu te vi passar. Eras um pontinho naquela janela que não fechava. Chovia. Chovia muitíssimo. O ar estava negro e pesava sobre ti. Tive a certeza absoluta de que era a noite mais triste da tua vida.
Distraí-me por dois segundos e foi o suficiente para te perder. Desapareceste na sombra de um prédio. Ainda fiquei à espera, mas não voltaste.
Apagaram-se as luzes. Murmuraram-se as boas noites. Ninguém viera ver da janela.
Naquela noite, calhava-me a mim dormir no divã encostada à parede. Por tua causa, e por causa da janela que não fechava, abracei-me ao meu casaco de lã e tremi de frio toda a noite. Fiquei a contar as gotas de chuva que entravam para o chão do quarto. Pensei em ti, e em como nos riríamos à gargalhada se estivesses ali comigo e, de manhã, quando acordássemos, víssemos no chão a mancha que ficaria de toda aquela água. Uma parvoíce da qual eu nunca, nunca, me riria com mais ninguém.
Ao meu lado, na mesma cama, dormia uma rapariga que eu mal conhecia. Simpática, mas um tanto vazia, e fazia-me confusão vê-la dormir descansada, fácil e feliz. De vez em quando, a chuva aumentava de intensidade ou rugia ao longe um trovão, e ela assustava-se e dava-me um pontapé por debaixo dos lençóis.
A cada vez que isto acontecia, eu chorava baixinho. Doíam-me tanto. Doía-me tanto o toque dela na minha pele.
Eu só estava a sobreviver porque me tinha convencido de que estava sozinha. E de repente não estava. Nem na noite mais triste, nem em Londres, nem num quarto gelado, nem num divã minúsculo eu estava sozinha. Eu não estava contigo, mas estava com outras pessoas. Pessoas que eu não conhecia, que não me faziam rir, que nunca me tinham ouvido chorar, que não entendiam o que eu queria dizer, que viam o mundo sem sombras, que cantavam no duche, que discutiam cores de batons e tamanhos de calções, que se riam feitas parvas e que faziam de propósito para se queimarem com o chá para se poderem continuar a rir feitas parvas mais um bocadinho.
Nessa semana em que estive em Londres, procurei por ti todas as noites. Em nenhuma delas te encontrei.
E, na manhã seguinte, acordei, olhei para o chão, e não havia nada.
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