" Fechas os olhos no escuro mas estás acordado para sempre"

segunda-feira, 23 de março de 2015

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Desculpa, vou-me embora. Vou embora daqui hoje. Odeio estas ruas feias, as pedras desfeitas das calçadas, e toda a gente que as pisa e que não repara que elas choram por nós. Não sei respirar como vocês, loucos e estúpidos, aborrecidos e mortos, olhos pousados na estrada e ninguém faz nada nunca. Como é que conseguem dormir e acordar, fazer panquecas e sorrir? Não vos percebo, nem tu percebes, como eu odeio os domingos de manhã. As noites são tão curtas, a escuridão que me abraça é tão pouca, tudo escasseia, tudo me cai das mãos, o ar não tem peso, as pedras não prendem os sonhos ao chão, as árvores não chegam ao céu, vivem todos encolhidos nas metades de todas as coisas. Ninguém abre os braços e sonha, ninguém é maior do que os seus medos. Isso mete-me nojo. Tudo me mete nojo. E cheira mal, a chuva miudinha e a limão, é um ar amargo este que respiramos. Os meus pulmões rejeitam-no, odeiam-no de morte. Faz-me doente. Esta cidade de gelo faz-me adoecer. Linhas de dormência gelada que me nascem na ponta dos pés e me atravessam a vida. Vou-me embora daqui hoje. E quero ir para um sítio que não faça ideia de quem eu sou. Vou fazer desse sítio um sítio bonito. Um sítio com sol verdadeiro. Noites longas e fundas, parques com bancos que não se partam à primeira lágrima, madrugadas, praias, poetas descalços e histórias de amor. Vai ser perto de onde descolam os aviões, e assim, aos domingos de manhã, em vez de sorrir, vou ficar a vê-los rasgar o céu, ouvir as pessoas chorar com saudade e derramar amor bruto para a estrada.

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