" Fechas os olhos no escuro mas estás acordado para sempre"

segunda-feira, 4 de maio de 2015

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Black And White.

Ela respirou brandamente. As casas adormeciam, uma a uma, do lado de fora da janela que olhava, a noite deixava-se tombar com preguiça e cheia de sombras, sobre a cidade. O coração dela estava acordado, juntamente com o de outras pessoas que ainda estavam a pé e que ela não conhecia. Ela fazia sempre assim, porque à meia-noite todos os pensamentos eram mais doces e a dor caminhava sem fazer barulho e tornava-se quase bonita. Os olhos dela tremiam no escuro, inundados de solidão, enternecidos pela beleza que há em se estar absolutamente sozinho. Há peso no amor e jaulas de ferro nos corações dos que amam. Ela não tinha isso, nem tinha medo, nem tinha feito promessas pesadas. Só ela e às vezes a lua, e os seus cabelos compridos espalhados na almofada, e as lágrimas pequeninas, salgadas, e todas as pessoas que ela via na rua eram igual a ela, mas pareciam-lhe de alguma forma unir-se na solidão que partilhavam em silêncio.  Mas ela talvez fosse mais só e mais triste, demasiado só e demasiado triste, porque não havia quem olhasse para ela nos olhos. O mundo acordava e ia dormir e ela não dava conta, e por isso todas as noites, ela ficava acordada e olhava para a rua. Os prédios frios que a deixavam desconfortável, a calçada descalça e vazia, o vento que fazia ranger as paredes frágeis e as ameaças terríveis que ele sibilava. Os olhos do gato preto que passava ali sempre uns minutos antes do amanhecer, as folhas que voavam das árvores do parque até ela. 
E ela à espera. Mas não vinha o sol, e a luz era fraca. Não havia sombras no chão, e todos os tons de cinzento eram o mesmo. Não havia fogo nas bocas das pessoas e ninguém sabia desenhar um sorriso. Ela não se sentia feliz. 
Mas a noite levantou-se antes que ela tentasse fugir.